A dieta cetogênica (uma dieta baixíssima em carboidratos, rica em gorduras e moderada em proteína) há alguns anos vem sendo discutida como uma terapia adjuvante no tratamento de alguns tipos de câncer. A razão para essa associação é que a maioria dos tumores malignos utilizam predominantemente glicólise ao invés de fosforilação oxidativa para gerar energia. Além disso, alguns tipos de câncer não conseguem metabolizar corpos cetônicos (substâncias formadas pelo corpo em maior quantidade quando há baixa disponibilidade de glicose). Por esses motivos, em um contexto de dieta cetogênica, as células normais da pessoa se adaptariam numa boa a viver com menos glicose e mais corpos cetônicos/gordura como fonte de energia, enquanto que as células cancerígenas sofreriam sem sua principal fonte de energia.  Seria como se apenas as células com a mutação maligna passassem fome. Além disso, com a manutenção da glicose mais baixa, fatores considerados importantes para a proliferação das células cancerosas (como insulina e IGF-1) também são reduzidos.

Numa revisão recente (*) que reuniu estudos em animais e humanos, 42% dos estudos com cetogênica em PESSOAS com câncer foram favoráveis ao efeito antitumoral da dieta, enquanto que 29% não mostraram nenhum efeito e apenas 1 estudo mostrou efeito pró cancerígeno. Em resumo, o estudo concluiu que a probabilidade de uma dieta muito baixa em carboidratos causar um efeito antitumoral parece maior do que a de causar efeitos colaterais graves (mas claro que mais ensaios clínicos ainda são necessários). Em estudos pré-clínicos o tumor do tipo glioblastoma (o mais comum e agressivo câncer cerebral) é o que mais mostra resultados positivos de tratamento quando a dieta cetogênica é aplicada como adjuvante, mas outros tipos de cânceres como mama, cólon, pulmão, próstata, também já mostraram efeitos positivos (até então em estudos pré-clínicos, câncer renal e melanoma já mostraram efeitos negativos /pró-câncer com o uso da dieta).

Essa semana (08/10/2019) tive uma grata surpresa no consultório! Uma paciente (Flavinha amadaaa) que atendi há 3 anos atrás e que estava em tratamento de CA de mama voltou para retomar o acompanhamento nutricional. Na época usamos a dieta cetogênica durante o tratamento dela (ela seguiu perfeitamente as orientações!) e ela me relembrou o quanto os médicos que a acompanharam ficaram espantados em como a evolução e resposta ao tratamento dela foi boa! O tumor respondeu super bem a terapia, tanto que só foi necessária a retirada apenas de um pedacinho bem pequeno da mama (se não fosse a pequena cicatriz, nem dava para dizer que foi retirado alguma coisa). Se a dieta ajudou ou não? Nunca vamos saber! Mas os médicos definitivamente ficaram impressionados em como a resposta dela foi “fora da curva” 😊

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